julho 26 2019 0Comment
parto humanizado

Recomendado pela OMS, parto humanizado valoriza decisões da mulher

Método respeita a mulher e reduz o número de intervenções cirúrgicas desnecessárias

Ineida Cristina Nunes Nishida andou em direção ao chuveiro. Depois de alguns minutos, sentiu a dor de mais uma contração. O plano inicial previa um parto na banheira, mas não deu tempo. Kenzo, seu segundo filho, nasceu no banheiro da sala de parto, de forma rápida.

Assistida pela equipe médica, Ineida teve direito a escolher quem a acompanharia no parto, teve a dor aliviada por anestésicos apenas quando solicitou e pode segurar o filho em seus braços após o nascimento.

Estes procedimentos fazem parte do que a OMS (Organização Mundial da Saúde) define como parto humanizado. O método reúne uma série de práticas que respeitam as decisões tomadas pela mulher e ajudam a reduzir o número de intervenções médicas desnecessárias.

Mais relacionado ao parto vaginal, a humanização deve ser feita também em cesarianas – Sabrina Pierri/Divulgação?ND

Publicado em novembro de 2018, o documento da OMS elenca 56 recomendações sobre o pré, o parto e o pós-parto. O texto destaca o direito da mulher a ter um acompanhante durante o processo e a escolha de uma posição confortável na hora da expulsão — fase final do trabalho de parto.

As recomendações são tanto para partos vaginais como para cesarianas. De acordo com a enfermeira obstétrica do Hospital Universitário Polydoro Ernani de São Thiago Sandra Elisa Sell, o parto humanizado deve “valorizar os aspectos emocionais, humanos e culturais da mulher”. Ainda assim, uma a cada quatro mulheres no Brasil diz ter sofrido violência obstétrica. O dado faz parte da pesquisa “Nascer no Brasil”, coordenada pela FioCruz (Fundação Oswaldo Cruz).

A violência obstétrica é considera um tipo específico de violência contra a mulher. Ela engloba práticas que desrespeitam a gestante em qualquer fase da gravidez e no parto. Porém, o termo não possui uma definição institucional e o CFM (Conselho Federal de Medicina) afirma que “os médicos entendem que a autonomia da mulher deve ter limites, principalmente quando existem fatores que possam colocar tanto a mãe quanto a criança em risco, se o parto vaginal for escolhido, e em local que não seja o hospital”.

Recentemente, o termo “violência obstétrica” foi considerado inadequado pelo governo federal. Por meio de um despacho, o Ministério da Saúde afirmou que a nomenclatura caracteriza uso intencional de força por meio dos médicos. O texto exclui o uso da expressão em documentos de políticas públicas.

O estudo da FioCruz ouviu 23.940 mulheres entre fevereiro de 2011 e outubro de 2012, constatando o uso de práticas ultrapassadas e invasivas. Entre elas está a manobra de Kristeller, executada pela aplicação de pressão na parte superior do útero com o intuito de facilitar a saída do bebê. A técnica, realizada em 37% das entrevistadas, pode causar lesões graves na parturiente e não é recomendada pelo Ministério da Saúde nem pela OMS.

A pesquisa aponta ainda que boas práticas de intervenções na assistência médica durante o parto ocorreram em menos de 50% das mulheres. Alimentação, uso de métodos não farmacológicos para o alívio da dor e caminhada durante a fase ativa do parto são alguns dos métodos para humanizar o nascimento.

As recomendações geralmente se dirigem a condução do parto normal, mas o número de cesarianas no Brasil é campeão. Em 2013, 55% das mulheres realizam cesarianas no país segundo dados do Datasus (Departamento de informática do Sistema Único de Saúde). No setor público, o número atingia 46%, no setor privado, chegava aos 86%. O número é alarmante, pois a OMS sugere que a taxa de cesáreas varie entre 10 a 15%.

A cesariana é uma cirurgia importante que evita, em alguns casos, sofrimento fetal e óbito da mãe ou do bebê. Contudo, o procedimento é considerado desnecessário quando não há situação que coloque em risco a saúde da gestante e do filho.

O aumento do número de procedimentos cirúrgicos no parto afastou a ideia de um evento fisiológico e feminino, tornando-o cada vez mais médico e hospitalar. O artigo “Violência Obstétrica no Brasil: uma revisão narrativa” destaca que, para justificar as cesarianas, passou-se a ter “a noção do risco e da patologia como regra, e não mais como exceção”.

Para a enfermeira obstétrica do Hospital Universitário Sandra Sell é possível adotar as práticas do parto humanizado na cesariana, levando em consideração as limitações de um centro cirúrgico. Para tornar o ambiente mais acolhedor para a mulher e seu acompanhante, pode-se colocar música, apagar as luzes da sala após o término da cirurgia e possibilitar o contato entre a mãe e o bebê no pós-parto.

Atuação de doulas e enfermeiras obstétricas

No parto dos dois filhos, Ineida Nishida foi auxiliada pela doula Cristina Melo. O trabalho da profissional inclui a assistência física e emocional podendo ser contratado em qualquer fase da gravidez e também no puerpério —  período pós-parto. Cristina, que já acompanhou mais de 500 mulheres, destaca que seu trabalho “é fornecer informações para que o casal decida o que é melhor para eles”.

A assistência prestada pela doula é diferente da atuação de parteiras e enfermeiras obstétricas que realizam partos domiciliares. “A doula não deve ter vínculo empregatício com o hospital ou maternidade, para não haver conflito de interesses. O único interesse deve ser o casal”, explica.

Kamila Alves não planejou a gravidez de Maria Fernanda. Quando descobriu, a única certeza que tinha era a de que queria um parto diferente da cesariana realizada no nascimento de Joaquim, seu primeiro filho. Com 40 semanas, a dor forte das contrações e o sangramento levaram a Kamila ao hospital. Cristina também foi sua doula e chegou ao local pouco depois.

Durante a fase ativa do parto, o trabalho da doula é diferente da atuação de enfermeiras obstétricas. Fundada por Vânia Sorgatto Collaço, a equipe Hanami realiza partos domiciliares na região da Grande Florianópolis. As profissionais são formadas em enfermagem e possuem especialização em parteria domiciliar.

De acordo Juliana Ribeiro, enfermeira da equipe, são atendidas mulheres com gestações saudáveis, garantindo assim a segurança do processo. Não é aplicada anestesia e o objetivo é evitar intervenções. “A gente preza pelo empoderamento da mulher, para que ela se conecte com seu corpo”, conta Ribeiro.

Rede pública registra mais partos normais

O número de partos normais é maior que de cesarianas na rede pública de Florianópolis. o Hospital Geral de Sâo José e a Maternidade Carmela Dutra, ambos administrados pelo governo do Estado, registraram um número maior de partos normais durante todos os meses de 2018. Em setembro, por exemplo, a Maternidade teve 111 cesarianas contra 244 partos vaginais.

A situação é semelhante a do Hospital Universitário. No ano passado 59,2% dos nascimentos foram por pelo parto normal. O resultado se repete em 2019, com maior número de partos entre janeiro e abril.

Comparando os dados sobre nascimentos fornecidos pelo Datasus nos anos de 1996, 2006 e 2016, Florianópolis manteve número maior de parto normal. Dos 6.235 partos realizados em 2016, 3.125 foram vaginais e 3.105 cesarianas.

 

Fonte: ND Mais, por 

admin

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